30 maio 2005

Asas do Desejo

Asas do Desejo

“Quando a criança era criança, não sabia que era criança; tudo era cheio de vida e a vida era uma só! Quando a criança era criança, não tinha opinião, não tinha hábitos; sentava-se de pernas cruzadas, e saía a correr...”
Os anjos e as crianças são personagens sem biografia. Damiel e Cassiel, os anjos principais de Asas do Desejo observam a Humanidade com a curiosidade própria de uma criança e a leveza própria de quem não tem um corpo físico.
Há muito que não pensava neste filme. Foi no sábado, quando alguém me perguntou alguns dos meus filmes favoritos. São vários. Mas tive que escolher. Colocada contra a parede, assim de repente, ainda por cima vindo a pergunta de quem veio, tive que decidir. Mencionei apenas dois: “Asas do Desejo” de Wim Wenders e “Breaking the Waves” de Lars von Triers. O que terão em comum? Porquê? Inevitável a pergunta. Em ambos, desde logo, no tema há a existência de algo maior que o Homem. Há ainda a profundidade complexa de cada um: a problemática social da opressão, a decadência das ideologias, a fé. E o amor. O amor, só por si, é já algo maior do que o Homem. Sinal de que o infinito pode caber dentro da finitude humana?!

Será que os homens percebem a sua própria magnitude ontológica?

3 Comments:

Blogger Anastácio Neto said...

magnífico filme, um dos títulos fundamentais para compreender a história do cinema europeu e mundial. Parabéns pelo bom gosto. Voltarei aqui várias vez. Excelente blog. Finalmente um espaço inteligente sobre a 7ª arte.

8:27 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

deixo a minha tradução( tentativa,não muito esgimida)desse poema soberbo do Handke.


Canção do Ser Criança

A criança quando criança
caminhava de braços balançando
queria que um ribeiro fosse um rio
o rio uma corrente
e este charco o mar

A criança quando criança
não sabia que o era
tudo lhe era sagrado,
e todas as almas uma só

A criança quando criança
não tinha qualquer opinião
vícios
sentava-se muitas vezes de perna cruzada
fugia a correr
tinha um remoinho no cabelo
e não fazia figura para a fotografia

A criança quando criança
era tempo das seguintes perguntas
Porque sou eu e não tu?
Porque estou aqui e não ali?
Quando começou o tempo e onde acaba o espaço?
Não é a vida debaixo do Sol apenas um sonho?
Isto que vejo oiço e cheiro
não é apenas uma aparência dum mundo antes do mundo?
Há mesmo o mal e pessoas
essas que são verdadeiramente as más?
Como pode ser que eu que estou aqui
antes de o ter sido não era
e uma vez eu que sou eu
não mais serei?

A criança quando criança
custava-lhe comer espinafre ervilhas arroz doce
e couve-flor estufada
e agora come isso tudo e não apenas por necessidade

A criança quando criança
despertou uma vez numa cama estranha
e agora sempre de novo
pareceram-lhe bonitas muitas pessoas
e agora só apenas por feliz acaso
imaginava claramente um Paraíso
e hoje pode quanto muito pressenti-lo
não podia inventar o Nada
e hoje arrepende-se disso

A criança quando criança
brincava entusiasmada
e agora nisso como outrora apenas
quando é o seu trabalho

A criança quando criança
bastava-lhe como alimento maçã pão
e ainda assim é

A criança quando criança
caiam-lhe bagas como apenas bagas nas mãos
e agora ainda
as nozes frescas faziam-lhe a língua áspera
e agora ainda
tinha em cada montanha
saudade por uma montanha mais alta
e em cada cidade
saudade por uma cidade ainda maior
e assim ainda é
agarrava em êxtase numa cereja na copa duma árvore
como ainda hoje
tinha timidez com todos os estranhos
e ainda tem
esperava pela primeira neve
e ainda espera

A criança quando criança
atirou como lança um pau contra a árvore
e ela treme lá ainda hoje

1:40 da manhã  
Blogger ISABEL Mar said...

Obrigada pela traduçãp João Artur :)

12:41 da tarde  

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